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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Antes de dormir - S. J. Watson

       "A memória nos define. Como seria, então, se você a perdesse toda vez que dormisse? Seu nome, sua identidade, seu passado, até mesmo as pessoas que você ama... tudo seria esquecido da noite para o dia. E a única pessoa em que você confia talvez esteja contando apenas parte da história. Bem vindo à vida de Christine."


Eis a premissa do romance de estreia de S. J. Watson, "Antes de dormir". O livro começa no estilo do clássico filme "Como se fosse a primeira vez", de Adam Sandler: uma mulher traída pela própria memória, que acorda toda manhã esperando estar anos atrás do dia que realmente se encontra. Uma mulher que tenta resgatar partes dessa memória a cada momento do dia, mesmo sabendo que tudo desaparecerá quando pegar no sono. 


O diferencial é que nesse caso não trata-se de uma história de amor, mas sim de puro suspense. "Perturbador" seria uma boa forma de descrevê-lo, ainda que em alguns pontos tenha sido bem previsível. 

É difícil falar muito mais sem dar spoiler, visto que em alguns momentos o livro é repetitivo e enrolado: Christine acorda ao lado de um homem que não lembra conhecer, pensando ser décadas mais jovem. Ela vai até o banheiro, assusta-se com o próprio reflexo, o qual é repleto de marcas do tempo. Ainda no banheiro, ela encontra fotos dela com o homem que está em sua cama, provas de um relacionamento feliz e duradouro. É seu marido, descobre ela.

Logo que ele sai, Christine recebe ligação de um médico com o qual está tentando um novo tratamento, que pode recuperar os danos em sua memória. O médico lhe orienta a registrar todos os progressos e informações importantes em um diário, e ambos (tratamento e registros) são feitos em sigilo absoluto, dia após dia, tentando organizar o caos interior de Christine.

Essa rotina acontece sempre e é por isso que em alguns momentos a leitura se torna repetitiva: você quer desesperadamente que ela lembre de algo, ou que vá mais a fundo sobre algum fato ocorrido ou alguma lembrança... E então Christine dorme, e começa tudo de novo. Angustiante.

Sobretudo, Watson nos proporciona uma história muito bem escrita, de linguagem simples e com uma trama bem construída. Ainda que a surpresa venha apenas em alguns poucos pontos, a leitura continua sendo prazerosa e você se vê torcendo pela personagem, querendo que ela consiga reter alguma memória e pôr ordem em sua mente e em sua vida. Típico livro onde a autora aposta no "mais do mesmo" e dá certo. 

Gostaria apenas que a história tivesse se estendido para pelo menos uma semana depois dos últimos fatos, pois o desfecho pareceu rápido demais quando comparado ao ritmo que fluía todo o restante do livro. 

Enfim, "Antes de dormir" está longe de ser o tipo de história transformadora, do tipo que você fica pensado por semanas e querendo reler tudo imediatamente, só pra prolongar a sensação. Entretanto, trata-se de uma leitura agradável para os amantes do suspense, ou para um final de tarde descompromissado. Seria uma excelente adaptação cinematográfica, se o fizessem.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A garota no trem - Paula Hawkins

Quando vi a comparação de "A garota no trem" com "Garota exemplar", logo comecei a procurar resenhas sobre ele na internet. Sou apaixonada pela escrita de Gillian Flynn, então ver que vários leitores confirmaram a semelhança entre ambos me deixou ansiosíssima para iniciar a leitura. 

A primeira semelhança entre os dois é que tanto os livros de Flynn quanto o de Paula Hawkins despertam uma vontade de ler compulsivamente até desvendar o mistério por trás da história. Os dois possuem várias reviravoltas, personagens completamente perturbados e um final surpreendente. Ou seja, é um livro com todos os elementos desejados para se tornar inesquecível. 

"A garota no trem" conta a história de Rachel, uma mulher carente, desestabilizada emocionalmente e com graves problemas de alcoolismo. Ela era casada com Tom, mas foi traída e abandonada por ele, o que tirou toda sua vontade de viver e se manter sóbria. A partir disso, foram ocorrendo uma sucessão de fracassos: ela perdeu o emprego, não consegue superar o vício e passou a morar de favor após Tom levar a nova esposa e a filha para a casa que um dia foi deles. Em depressão profunda, Rachel dedica seus dias à observar estranhos que moram perto da casa de Tom, passando diariamente por eles em seus passeios de trem.

Há apenas algumas casas de onde morou com Tom, reside um casal que chama a atenção de Rachel de forma especial. Ela passou a observá-los quando evitava olhar para a sua antiga casa, para não ver o ex com sua nova família. Observou tanto, que acabou se cativando pelos dois, por todo o carinho que pareciam demonstrar um pelo outro quando sentavam na varanda. Batizou-lhes então de Jéss e Jason.

Observá-los passou a ser o momento mais empolgante do seu dia, a única distração na vida vazia e triste que leva. Através das poucas cenas que via ao passar de trem diariamente, Rachel já julgava conhecê-los muito bem. Até o dia que viu um fato que mudou completamente seu ponto de vista. 
Dias depois dessa cena, Rachel acorda machucada e recebe uma mensagem furiosa de Tom, mas não consegue se lembrar de nada, pois estava completamente bêbada na noite anterior. Ao ligar a tv, descobre que Jess (que na verdade se chamava Megan) desapareceu e que Jason (que se chamava Scott) é o principal suspeito. 

A partir disso, Hawkins desenvolve uma história repleta de reviravoltas, surpresas, personagens completamente perturbados (e muito bem construídos, assim como os de Flynn). Notamos então que, assim como prometido na capa, "A garota no trem" faz com que mudemos para sempre nossa forma de observar as pessoas ao nosso redor e até mesmo aquelas que fazem parte do nosso convívio diário, pois nem todo mundo é como parece.

Dizer que a história é "fantástica", ainda será pouco perto do que realmente é. Ela realmente tem muita semelhança com "Garota exemplar" em alguns aspectos, mas há mais personagens, mais suspeitos e um pouco mais de drama. É incrível!

No início desse ano saiu a adaptação cinematográfica do livro, a qual infelizmente ainda não tive a oportunidade de assistir. Entretanto, o ponto que mais me atraiu no livro foi a explanação da personalidade de cada personagem, o que fica um pouco difícil de transmitir em filme. Independentemente disso, "A garota no trem" funcionou perfeitamente como livro, é um thriller arrebatador e, como poucos, conseguiu atingir o mesmo patamar de Gillian Flynn, que para mim é a melhor escritora do gênero. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O Adulto - Gillian Flynn

Antes de começar a falar do que se  trata "O Adulto", é válido mencionar que o mesmo foi vencedor do Edgar Award , eleito o melhor conto de 2015. Some isso ao fato de que foi escrito por Gillian Flynn à pedido do ilustre George R. R. Martin e que a própria Gillian já figurou nas listas de mais vendidos do Brasil graças à seu best seller "Garota exemplar". Então, quando soube de sua publicação, as expectativas à respeito não podiam ser melhores. E nem preciso mencionar que, mais uma vez, Gillian me surpreendeu positivamente. 

"O Adulto" conta a história de uma jovem charlatã que ganha a vida praticando trabalhos sujos. Inicialmente, exercia a função de masturbadora em um bordel, mas logo começou a desempenhar também o papel de falsa vidente, afirmando sempre fazer uma boa leitura da aura das pessoas. Quem conhece Gillian sabe que seus personagens sempre têm condutas duvidosas e comportamentos perturbadores e com essa não seria diferente.

Intuitiva e demasiadamente observadora, ela atende especialmente donas de casa ricas e tristes que buscam uma solução para suas vidas entediantes. E é exatamente isso que ela pensa de Suzan Burkes quando a mesma aparece afirmando ter algo errado com sua casa. Entretanto, as coisas se mostram bem diferentes quando fatos perturbadores começam realmente a acontecer.

Susan se mudou para a cidade há pouco tempo com marido, filho e o enteado adolescente e desde então vem notando inúmeras coisas erradas acontecendo. A jovem vidente vai até o local e se depara com um grande mal que parece estar presente em cada canto, intrigando-a cada vez mais.

A partir de então, cada vez mais a história vai sobrepondo um desfecho ao outro, de modo que Gillian confunde seus leitores e mantém, no decorrer de cada uma das sessenta e quatro páginas, o clima macabro de suspense e terror proposto no início. 

Temos uma espécie de brincadeira de gato e rato onde a protagonista vê todas suas certezas e convicções testadas e o mais fantástico desse conto é que cada vez que pensamos estar cientes do que está acontecendo, tudo é desconstruído .

A única coisa que eu mudaria na história seria o fato de ser apenas um conto. Foi tudo tão bem escrito e a proposta é tão interessante, que "o Adulto" merecia um livro inteiro, especialmente pela conclusão magnífica que teve.

Com essa leitura, concluo todos os livros da Gillian Flynn já publicados no Brasil e novamente se torna difícil escolher qual dos quatro é melhor. A autora é a melhor do gênero, sem sobra de dúvidas. Todas suas histórias são repletas de muito suspense, personagens perturbadores e finais surpreendentes. Com "O Adulto" não foi diferente. Agora, aguardo ansiosamente para que ela publique mais uma história fantástica, mas por enquanto a única novidade à respeito é que a autora está produzindo uma série de "Objetos Cortantes", que ainda não tem data prevista para lançamento. 

Sobretudo, vale reafirmar que "O Adulto" é um conto fantástico, super bem escrito e com um final surpreendentemente perturbador, reafirmando o estilo inconfundível da autora e se tornando merecedor do prêmio conquistado. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Lugares Escuros - Gillian Flynn

Que eu sou apaixonada pela escrita da Gillian Flynn já não é mais segredo, mas ainda assim, torno à repetir. Para mim, a autora está no topo da lista de melhores autores de thriller psicológicos e é uma das raras que consegue sempre me surpreender. 

Não que eu seja uma expert em desvendar os suspenses propostos, mas a verdade é que pelo menos uma partezinha eu consigo sacar, graças à minha experiência de leitura do gênero. Mas com Gillian, os finais sempre vêm como tapas na cara. Com "Lugares Escuros" não foi diferente.

Nesse livro, conhecemos Libby, uma mulher de 31 anos que ainda sofre os impactos de um trauma que passou quando tinha 7 anos: ela teve sua mãe e irmãs brutalmente assassinadas por machadadas, tiros e estrangulamento e Ben, o seu irmão mais velho foi considerado culpado pelo crime, sendo condenado à prisão perpétua. Libby foi a testemunha chave para tal condenação e, desde então, sua vida nunca mais foi a mesma.

Durante os 24 anos que se passaram após o crime, Libby foi sustentada por doações de pessoas que lamentavam sua tragédia, um grande fundo bancário criado na ocasião para ajudar a pequena e desamparada Libby. Graças à isso, Libby nunca precisou trabalhar ou estudar e levou uma vida desregrada e introvertida, sem nunca lidar direito com tudo o que aconteceu. Porém, quando os recursos desse fundo acabam, ela fica completamente desnorteada, sem saber o que fará para conseguir se manter financeiramente.

Surge então um grupo de jovens fanáticos em desvendar crimes reais, o Kill Club. Eles são completamente fascinados pelo assassinato da família de Libby e insistem na teoria de que Ben é inocente e que Libby só afirmou ter visto o contrário porque tinha apenas sete anos, estava traumatizada e foi induzida à pensar e acreditar nisso. Eles lhe propõe ajuda financeira em troca de remexer o caso, em busca de provas que demonstrem que sua teoria está certa. E, quanto mais mexe no caso, mais Libby vê todas as certezas que achava que tinha sobre aquela noite serem destruídas.

O livro então alterna entre as narrativas à respeito de Libby hoje e de sua mãe e irmão nos dias que antecederam o assassinato. E a história vai ficando cada vez mais complexa, com inúmeras doses de temas complexos como pedofilia, drogas, rituais satânicos, sexo prematuro e as tradicionais personalidades perturbadas que Gillian Flynn sabe explanar tão bem.

Enfim, é uma obra prima. Tão bom quanto "Garota Exemplar" e "Objetos Cortantes". Até hoje não consigo definir qual é melhor ou qual me surpreendeu mais. A escrita de Gillian é rápida e perspicaz e quanto mais você lê, mais curioso fica, mais quer saber, até que você nota que leu o livro inteiro em poucas horas.
Uma coisa posso garantir: acredito, sinceramente, que NINGUÉM foi capaz de adivinhar ou deduzir o que de fato aconteceu naquela noite até o momento em que leu. Eu havia ouvido isso de um leitor e pensei "que nada, vou chutar os fatos mais improváveis e o assassino menos suspeito e estarei certa, pois Gillian sempre faz isso". E chutei. Tinha uns três ou quatro finais imaginários na minha cabeça mas nenhum deles me preparou para o que de fato aconteceu. E, mais uma vez, eu tiro o chapéu pra essa mulher!

O livro tem três opções de capa e eu estou feliz da vida, pois consegui comprá-lo com a original, que combina perfeitamente com as capas dos demais livros e agora tenho a coleção completa! A diagramação é perfeita, como sempre é com os livros da Intrínseca. Foi feita também uma adaptação cinematográfica homônima, a qual tenho certeza que ficou maravilhosa (até porque a própria Gillian estava envolvida no roteiro), mas ainda não tive o prazer de assistir. 

A única coisa que notei de diferença é que no livro Libby é muito baixinha (se não me engano, tem um metro e meio) e ruiva, assim como Ben, e no filme ela é alta e loira, e ele também. Mas, quem se importa com cor de cabelo quando temos uma história absolutamente perfeita, surpreendente e rica em detalhes?!

sábado, 6 de agosto de 2016

Objetos Cortantes - Gillian Flynn

Forte, intenso e perturbador: essas são as três melhores palavras que encontrei para descrever esse livro. Desde Pretty Girl 13 não lia nada que me causasse tamanha estranheza, mas no melhor dos sentidos. Eu sou fã de thrillers, especialmente aqueles como os de Gillian Flynn, onde nenhum personagem parece normal ou puro, mas confesso que "Objetos Cortantes" ultrapassou limites e me tirou o fôlego.

Pela sinopse, já percebe-se: Camile, a protagonista, acaba de sair de um hospital psiquiátrico onde ficou internada por muito tempo para tratar sua tendência à auto-mutilação. Em seu corpo, as marcas permanecem, inúmeras palavras como "vadia", "promiscua" e muitas outras que se inquietam e queimam em seu corpo quando lembra dos motivos que a levaram a fazer cada uma delas. São cicatrizes externas, fora as muitas internas que seu passado sombrio lhe causou. Por esse motivo, há oito anos Camile não volta à sua cidade natal, a pequena Wind Grap, mas isto está prestes a mudar.

Porém, Camile é réporter de um jornal sem prestígio em Chicago e em Wind Grap, crianças estão sendo assassinadas, Jovens meninas, mortas de forma brutal e cruel, tendo seus dentes arrancados. O seu jornal precisa de uma matéria diferente e bombástica para se recuperar da decadência e é por esse motivo que Camile se vê sendo obrigada a retornar à sua cidade natal.

Entretanto, nem os oito anos longe, nem o período internada serviram como preparação para o que Camile teria que lidar: lembranças que tentava a todo custo esquecer, sua mãe neurótica e descontrolada, o padrasto omisso e a meia-irmã tão perturbada quanto desconhecida. Aliás, a cidade inteira parece ser repleta de pessoas insanas e multifacetadas. E chegar lá é apenas o início de uma sucessão de fatos angustiantes e tensos.

Eu li Garota Exemplar antes de ler "Objetos Cortantes", apesar desse ter sido o romance de estreia da autora, Quando comecei a ler, pesquisei a respeito e vi muitas pessoas falando que ele não chegava nem perto da grande maestria que Flynn demonstrou em narrar Garota Exemplar, mas posso afirmar que para mim ambos são sensacionais e que se eu tivesse que optar entre apenas um dos dois, seria Objetos.

O desenrolar da história é todo tenso, você fica completamente apreensivo e não consegue largar o livro enquanto não descobre quem é o verdadeiro assassino, e ai vem a melhor parte: o livro inteiro te dá dicas muito sutis de que possa ser uma pessoa e então é revelado que realmente é essa pessoa. Você se sente o melhor dos investigadores por ter acertado e, (surpresa!!), quando faltam menos de dez páginas para acabar e tudo parece ter sido resolvido, Gillian vem e nos dá um tapa na cara, desconstruindo toda a certeza que tínhamos e derrubando nosso queixo lá no chão!

O livro tem também uma outra versão com o título "Na própria carne", com uma lâmina na capa.
Apesar de essa versão ter mais a ver com a história, fiquei apaixonada pela diagramação da Intrinseca quem como sempre, nos trouxe um livro super caprichado, com capa bonita, fonte em tamanho ideal, bom espaceamento... Fora que a versão "Objetos Cortantes" (preto e azul) combina com as capas de "Garota exemplar" (preto e rosa), "Lugares Escuros" (preto e verde) e "O Adulto" (preto e amarelo), o que para os colecionadores é um presente!


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Garota Exemplar - Gillian Flynn


Garota exemplar é um thriller de tirar o fôlego. O relato perfeito e detalhado de um casamento que, como muitos, começa perfeito, mas a convivência faz com que a relação fique não somente desgastada, mas doentia.

O livro é intercalado entre relatos de Nick no presente e um diário deixado por Amy, a famosa, extraordinária, linda e perfeita Amy exemplar.

Amy era a mulher que todo homem queria ter e que toda garota queria ser. Era a filha única de um casamento feliz e a inspiração para uma série de livros criadas pelo seus pais, a série Amy Exemplar, que se tornou sucesso mundial e consagrou Amy como a mulher perfeita, adorada e idolatrada por todos. Quando ela e Nick começaram a namorar, ele mal podia acreditar em sua sorte.

Ele, filho de um pai que cruel e violento, temia ter herdado o gene que achava todas as mulheres piranhas desprezíveis, mas quando encontrou Amy viu que poderia fazer diferente, que poderia ser bom. 

Eles construíram o tipo de relação que deixaria qualquer pessoa com inveja. Lindos, apaixonados, bem sucedidos, ricos e felizes. Eles tinham piadas particulares e tradições só deles, como a caça ao tesouro que acontecia em todo aniversário de casamento, sempre com pistas de Amy escritas de forma carinhosa e adorável, que levavam Nick à diversos locais onde viveram algo especial naquele ano, até chegar ao presente no material da boda que comemorariam naquele ano. 

Tudo parecia perfeito, até "o dia do", quando Amy some em seu aniversário de cinco anos de casamento, deixando para trás marcas que demonstravam que ela poderia ter sofrido um assassinato, além de um diário que contava, dia após dia, a destruição do conto de fadas que haviam construído.

Foram encontrados indícios de luta corporal, de muito sangramento pela parte de Amy e de uma tentativa desesperada de disfarçar tudo isso. E, em meio à tudo isso, Nick não parecia nem um pouco com o marido triste e apavorado que todos esperavam encontrar. Nick parecia quase... aliviado, para não dizer culpado.

Pouco a pouco, a história se desenrola de uma forma que cada vez mais temos certeza que nada é como parece ser, mentiras de Nick vão surgindo dia após dia e, quanto mais lemos o diário de Amy, mais vamos chegando perto de concluir o casamento que todos achavam perfeito, tinha se tornado uma relação doentia, repleta de surtos de raiva e fúria, de frieza e ódio. 

Lemos, intercalados com os capítulos onde Nick inventa inúmeras mentiras para provar sua inocência, se torando cada vez mais suspeito, o diário de uma esposa devota e apaixonada, que não entende o motivo de ter deixado de ser amada, até descobrir que o motivo era uma jovem de vinte e três anos, que se tornara amante de Nick.

Vemos relatos de uma esposa que, mesmo traída e magoada, prepara mais uma linda caça ao tesouro em comemoração aos cinco anos de casados, na tentativa de provar ao mundo que quer reconquistar seu marido, que quer perdoá-lo. Até o dia do. 

Não posso falar mais que isso sem dar spoilers, mas posso garantir que essa é uma das histórias mais surpreendentemente chocantes que já li, narrada com uma inteligência e perspicácia tão grandes, que é impossível não ficar pensando na magnitude de cada detalhe, mesmo dias após ter encerrado a leitura.

Gillian Flynn soube explorar de forma incrível a psique humana, desmembrando as relações dos personagens de forma minuciosa e até perturbadora. O final é incômodo, como a sensação de uma pedra no sapato. Não é um final ruim, é um final maravilhoso, é o melhor final que o livro poderia ter, pois manteve seu clima de suspense e insanidade até a última página, deixando qualquer leitor realmente perturbado.

A história ganhou uma adaptação cinematográfica homônima, estrelada pelo fabuloso Ben Affleck, que soube interpretar com maestria cada detalhe da personalidade de Nick, e pela literalmente exemplar, Rosamund Pike. É uma obra totalmente fiel, do início ao fim, que vale a pena ser apreciada (eu já assisti três vezes e em todas fiquei de queixo caído).

Enfim, o livro é dividido em três momentos e, ainda que a primeira parte seja mais parada, recomendo à todos que continuem, pois valerá cada linha, especialmente depois da revelação bombástica que ocorre na segunda parte. Garota exemplar é realmente um livro exemplar, que merece estar na sua estante e ser lido e relido e que, sobretudo, mostra que nem toda relação é como parecer ser.