domingo, 4 de outubro de 2015

Proibido - Tabitha Suzuma

Essa é, sem sobra de dúvidas, a resenha mais difícil que já escrevi. Há dias eu começo e paro, tentando procurar as palavras certas que possam definir o sentimento que esse livro me despertou. E nada parece suficiente.

Antes de mais nada, vale alertar que, apesar da capa se assemelhar às capas de romances eróticos, "Proibido" trata de um tema muito mais profundo, tenso e doloroso que isso. Trata de um verdadeiro tabu, que é o incesto. Sim, "Proibido" conta a história de Lochan e Maya, dois irmãos que se apaixonam. Mas, por favor, não julgue antes de ler.

O que no início pode parecer uma ideia repulsiva torna-se muito diferente ao entender as motivações dos personagens. Eu me vi torcendo pelo amor desses dois de uma forma tão intensa, que o sofrimento deles me causava dor de verdade, me  deixou angustiada, me fez querer mudar o mundo.

Veja bem, não estou falando que apoio o incesto por ter lido "proibido". Mas, Maya e Lochan tem um amor tão lindo, tão cuidadoso, tão cheio de companheirismo e afeto que é impossível ver isso como algo errado ou repulsivo. Afinal, é um amor recíproco. É um amor mais saudável que muitas relações doentias repletas de agressividade, ciúmes e brigas, que nossa sociedade tolera tão bem. Eles só querem se amar, sem fazer mal à ninguém. Como e porque isso pode ser tão errado?

"- Nós não fizemos nada de errado! Como o nosso amor pode ser considerado horrível, quando não estamos fazendo mal a ninguém?
Seus olhos descem aos meus, brilhando úmidos na penumbra.
- Não sei - sussurra. - Como uma coisa tão errada pode parecer tão certa?"

Tabitha Suzuma soube narrar a história de uma forma tão intensa, que você consegue se colocar dentro da cabeça e coração dos personagens. Consegue entender seus sentimentos, consegue perceber o quanto eles quiseram negar essa paixão. Mas, como citado no início do livro, "você pode fechar os olhos para as coisas que não quer ver, mas não pode fechar o coração para as coisas que não quer sentir."

Maya e Lochan são os filhos mais velhos de um casamento desastroso. O pai abandonou a família. A mãe sempre deixou claro que nunca quis ter nenhum deles, então vive "aproveitando a vida" ao lado do namorado, aparecendo em casa pouquíssimas vezes, sempre bêbada.

Então, Maya e Lochie se obrigaram a assumir os papeis de chefes da família muito cedo. Eram eles que cuidavam dos irmãos, que os levavam para a escola, davam o que comer, brincavam, ajudavam com o dever de casa e faziam todas as coisas que o pai e a mãe deveriam fazer se não fossem ausentes. E eles enfrentavam tudo isso com a pressão de também cuidarem se si mesmos, de estudarem muito para dar um futuro melhor às crianças e, principalmente, de disfarçar essa situação familiar para que não fossem descobertos pela assistência social, que provavelmente os separaria em diferentes orfanatos se soubessem o descaso de seus pais.

Além disso, Lochan sofre de fobia social e crise de pânico. Para ele, é impossível falar ou até mesmo olhar nos olhos de qualquer pessoa que não seja da família. Os momentos na escola são um transtorno e, o único lugar que se sente seguro é em casa, ao tempo que a única pessoa com quem consegue conversar, se abrir e ser ele mesmo, é Maya.

A amizade deles é linda. Os dois se apoiam e são o porto seguro um do outro. Os dois se ajudam em todas as responsabilidades que tem e, quando as coisas ficam difíceis, um está ali, para impedir que o outro desmorone. Eles enfrentam juntos as crises de rebeldia dos irmãos mais novos, as dificuldades quando mal tem o que comer, a mãe bêbada e relapsa, que nunca se faz presente. E, em meio à tudo isso, eles se apaixonam. Mesmo sabendo que é errado, mesmo sabendo que nunca poderiam ficar juntos, mesmo tendo consciência que o incesto é visto como algo nojento e repulsivo.

O interessante é que eles mesmos, em vários momentos, tem nojo de si, por sentirem o que sentem. Eles tentam negar isso de todas as formas possíveis, chegando até a pensar em sairem com outras pessoas, mas sabem que é em vão, pois só eles se entendem e conhecem de forma tão profunda e intensa. 

Em determinado momento, Maya chega a tentar pensar em como seria estar com Kit, o outro irmão deles. E a ideia é repulsiva, ela sente total horror só de pensar, provando que não se trata de uma disfunção ou de uma consequência pela criação que tiveram, mas sim porque Maya e Lochan nunca foram apenas irmãos, mas sim almas gêmeas que, por uma desgraça do destino, acabaram nascendo filhos dos mesmos pais.

"Estou caindo, mas sei que estou bem porque é com ele, porque é com Lochan. Minhas mãos estão no seu rosto quente, minhas mãos estão nos seus cabelos úmidos, minhas mãos estão no seu pescoço suado. Agora ele também está me beijando,  entre soluços estranhos que indicam que talvez ele esteja chorando como eu, me beijando com tanta força que chega a tremer."

É uma história triste, sobre todos os aspectos. Os personagens são maravilhosos, especialmente Lochie, Maya e Willa, a irmãzinha de cinco anos. Eles fazem de tudo para manter a família unida, para defender uns aos outros, para enfrentarem as dificuldades que passam. Me arrisco inclusive a dizer que Maya e Lochan são os personagens mais altruístas que já vi. E é doloroso ver como o simples fato de eles se amarem pode causar tanta dor. É injusto demais que, com tantos problemas graves que existem no mundo, a sociedade condene o amor. Acho sim que incesto é passível de julgamento e punição, mas quando foçado. No caso de Maya e Lochan, o amor era recíproco e muito, muito lindo.

"- Nesse momento, a única coisa que eu sei é que te amo - digo em meu desespero contigo, as palavras se derramando por conta própria. - Eu te amo muito mais do que como um irmão. Eu te amo... de todas as formas possíveis e imagináveis.
- Eu também me sinto assim... - Sua voz soa chocada e ferida. - É um sentimento tão imenso que às vezes acho que vai me engolir. É tão forte que poderia me matar. E não para de crescer, e eu não posso... não sei o que fazer para estancá-lo. Mas... nós não podemos fazer isso... nos amar assim! "

Enfim, essa é a maior resenha que já escrevi e ainda não me parece suficiente. Eu sou apaixonada por livros dramáticos e tristes, mas há muito tempo não me sentia dessa forma. Me pego pensando na história como se fosse real, como se eu conhecesse os personagens, como se seu sofrimento também fosse meu. E fico tomada de um sentimento de revolta e injustiça, que só quem ler esse livro poderá entender. 

E não é apenas o sofrimento de Maya e Lochan por se amarem e não poderem ficar juntos, o que já seria um motivo mais do que suficiente para tamanho sentimento de injustiça. Mas some isso à uma mãe que tem cinco filhos maravilhosos e que vive deixando claro que nunca os quis e ao drama que Lochan enfrenta em suas crises de pânico e fobia e àquele final que é, sem dúvidas, uma das coisas mais dolorosas e revoltantes, afinal, uma história assim não teria como acabar bem.

Li "Proibido" em uma semana, mas vou levá-lo para a vida toda. É uma história diferente de qualquer outra que já li e não apenas pelo tema, mas pela forma como mexeu comigo. Tabitha Suzuma soube criar personagens tão lindos e com sentimentos tão intensos, que chega a dar saudade deles, como se os conhecesse. Enfim, é um livro estupendo, divino e muito, muito doloroso.

2 comentários:

  1. Menina, pelo amor de Deus que resenha é essa? Eu quero muito de verdade ler esse livro, mas estou com medo. Eu de fato me entrego a historia e eu pego pra mim a dor dos personagens, e apesar de saber que é um incesto eu nunca pensei em julga-los. Confesso que estou com medo de ler o livro não pelo tema, mas por saber que eles sofrem e consequentemente eu sofrerei em dobro, e a tua resenha só me deu mais certeza disso.

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    1. Menina, esse livro realmente me devastou. Eu pedi à minha mãe que lesse ele, ai ontem ela me ligou para dizer que havia acabado e, só de comentar sobre o livro com ela, meus olhos ficaram cheios d'agua. Nunca tinha me sentido tão abalada, mesmo sendo leitora assídua de livros tristes. A simplicidade com que a Tabitha narra faz com que os personagens se tornem tão reais, que parece que você os conhece. E você se pega torcendo tanto por eles que, quando chega NAQUELE final, te dá uma dor quase física. Tu tens que ler! Munida de lenços, claro, mas cada lágrima valerá a pena! Obrigada pela presença aqui no blog, lindona! Apareça depois para contar o que achou! <3

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