sábado, 29 de agosto de 2015

O lado bom da vida - Matthew Quick

O lado bom da vida conta a comovente história de Pat Peoples, um dos personagens mais carismáticos e maravilhosos que já vi. Pat tem problemas mentais. Ele ficou durante muito tempo internado numa clínica psiquiátrica, a qual se refere como "o lugar ruim".

Sem se recordar por qual motivo nem por quanto tempo ficou lá, o livro conta a partir do momento em que Pat sai desse lugar e começa a lidar com sua nova realidade, ainda que com muita confusão e ingenuidade. Ele sente falta de Nikki, sua ex-esposa, mas cria em sua mente a ilusão de que eles estão apenas passando um tempo separados e que, nesse tempo, a sua vida funcionará como um filme no qual ele deve constantemente tentar ser uma pessoa melhor, pois só se conseguir isso, terá sua amada de volta.

E é essa devoção por Nikki e a grande vontade de ser alguém melhor que torna a trajetória de Pat tão comovente. Ele realmente se esforça. Muito. Até demais, talvez. Ele pratica exercícios físicos de forma obsessiva, pois acha que Nikki só vai lhe amar e querer de volta se ele tiver um corpo sarado. Ele pratica ser gentil ao invés de ter razão, porque Nikki gostará mais dele se for gentil. Ele busca por livros que Nikki gostava de ler, apenas para que possa impressioná-la quando o tempo separados chegar ao fim e eles tiverem a chance de se ver e conversar. Ele tenta compulsivamente ser bom, se culpando e sofrendo toda vez que toma alguma atitude que Nikki desaprovaria.

"Estou praticando ser gentil ao invés de ter razão. (...) É importante dar valor às boas mulheres em nossa vida antes que seja tarde de mais."

Mas, uma das muitas coisas que Pat esqueceu em sua confusão mental, é o verdadeiro motivo pelo qual ele e Nikki estão separados. E também esqueceu porque sente pânico, raiva e medo cada vez que alguém põe Kenny G para tocar.

Em meio às suas constantes tentativas de se tornar alguém melhor e mais gentil, conhece Tiffany, uma moça também conturbada e instável, que se desestabilizou mentalmente após ter ficado viúva. Tiffany é complicada, rude, sarcástica, introvertida, antissocial e melancólica. Mas, sem um motivo aparente, ela começa a seguir Pat, insistindo em ser sua amiga. 

"Parece triste. Parece com raiva. Parece diferente de todas as outras pessoas que conheço. Ela não consegue fingir aquela expressão feliz que os outros fingem quando sabem que estão sendo observados. Ela não precisa fingir comigo, o que faz confiar nela, de certa forma."

No início, Pat tenta fugir à todo custo, pois o único foco de sua vida é se tornar a pessoa que Nikki quer para acabar com o tempo separados e ter o seu desejado final feliz. Porém, com a ajuda de seu psiquiatra, Pat entende que talvez Tiffany só precise de um amigo e, mais uma vez pensando no quanto Nikki gostaria se ele fosse gentil, ele aceita a aproximação de Tiffany e até concorda em participar com ela de um concurso de dança contra depressão, pois pensa no quanto sua ex-esposa ficaria feliz se ele soubesse dançar.

Como disse antes, a história de Pat é comovente, visto todo seu esforço e dedicação, mesmo que o mundo inteiro ainda esteja confuso e que tenha passado por um trauma tão grande quanto o que passou ao ser internado. Ele só quer ser bom, fazer o bem e ter um final feliz no filme que pensa ser sua vida.

"Não quero voltar para o lugar ruim, em que ninguém acredita no lado bom das coisas, no amor ou em finais felizes."

O livro é narrado pelo próprio Pat, como se fosse um diário. Algumas ideias são repetidas inúmeras vezes, visando esclarecer a forma como a mente dele funciona. Pat é um incansável otimista, chegando a beirar a infantilidade algumas vezes. É também ingênuo demais, o que o torna frágil e desamparado em meio a sua triste condição. É uma leitura deliciosa, com personagens cativantes e um final maravilhoso. O lado bom da vida teve uma adaptação cinematográfica homônima que, infelizmente, apesar da ótima escolha de atores, modificou os principais pontos da história, mudando completamente o sentido e a mensagem que esse magnífico livro tenta nos passar.

Um comentário:

  1. Maravilha de resenha.
    Eu confesso que tinha ficado meio "assim" quanto a ver o filme, mas confesso que curti muito a história. Geralmente os livros costumam ser melhores que as adaptações cinematográficas, mas eu gostei bastante do filme. Não sei se lerei o livro algum dia, mas quem sabe...

    Parabéns pelo Blog.

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